Sombra da Lua, o saveiro
Havia um brasão
dionisíaco, quase um beatle,
que num 75 rpm na
eletrola, arranhava assim:
Estou amargando melhor
o vinho do meu sacrifício
para o ácido vinagre dos
tempos.
Quando tudo azedou de vez
costumava invariavelmente
assobiar essa canção
enquanto tropeçava em
minha sombra
pregada aos pés como um
par de meias
arrastando seu destino de
abandono pela metade
e agarrada contumaz ao
rastro dos caminhos sem largar de mão
espichando trêmula um
resto de pôr do sol
a diluir sua densidade em
poucas notas
numa saudade desbotada entre
vermelhos e brasas.
Na estrada, ficavam a
saudade e o gosto dos automóveis.
Era uma vez um menino sem
juízo
que, nascido em Juazeiro,
transmutou o karma de sua
velha loucura
no que um dia ousaram chamar
de bossa nova
por pura brincadeira de
um destino
feito do mesmo nylon que
as cordas de seu violão
e de suas meias, que
insistiam em fazer par perfeito
com duas cores
diferentes, perseguindo sombras pelas estradas,
soprando o talco das
cinzas e dos homens.
Mas então não é isso o
que o pôr do sol também faz
ao reunir toda vertigem
num único cartão postal,
disfarçando extremos como
numa ponte
que tanasse o gosto de
ser lábaro e ser terceiro elemento,
não importando em lhufas
a tragédia suja implícita na paisagem?
Crescer depois foi
uma pirâmide!
E o deserto, àquela
altura apenas um mero detalhe tosco de céu,
era o único
conteúdo verdadeiro em meu suor escravizado.
Fossem cabras ou
camelos
nunca faltou pastor
que lhes tangesse o fado
sempre à frente de
seu próprio tempo,
chocalho de guia
que nunca se perdeu de seus tutanos
na cega vigília de
Tirésias
conduzindo quem lhe
ouvisse ou adivinhasse ruídos,
lendo eternidades a
esmo
num atalho pisado
de fim de tarde e mais alguns balidos,
porque definitivamente
ninguém é feito
apenas de ferro ou lã
e a vida em seus
profundos
carece
escandalosamente de tanino.
Em alguns tipos de
selva, não solto meus pássaros.
Deus, alado
cúmplice, nunca foi meu fiador nem rapina!
Fiz meu barco
conforme a floresta concedeu
e deixei o madeiro
mergulhado no mangue
como antídoto de
resistência ao tempo do que viria depois.
Quando os ventos sopram
pela manhã no quadrante norte
os saveiros partem em
direção a Salvador.
Duas horas da tarde é a
viração,
quando os ventos se
invertem e é hora de voltar
pelas mesmas velas
na vigília cega das hidrodinâmicas
de trajetórias ímpares aos
pares
espinha dorsal das
embarcações que chegam à eternidade
do meu porto, que é seu abrigo e meu ventre.



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