Bahia
Acontece algumas vezes
- Principalmente quando
as fadas baianas confabulam:
De bicicleta, Tauã, um
anjo vermelho em ascensão,
cruza o Quadrado calmamente
como se caminhasse sobre
as águas.
Poemas vividos
Bahia
Acontece algumas vezes
- Principalmente quando
as fadas baianas confabulam:
De bicicleta, Tauã, um
anjo vermelho em ascensão,
cruza o Quadrado calmamente
como se caminhasse sobre
as águas.
Ciranda cirandinha...
Dei rumos à discórdia por tempestades à risca.
E na trama do tempo,
à revelia
guerreiros com guerreiros
jogavam caxangá,
enquanto na vala comum,
em pleno pelotão de fuzilamento
escravos de Jó morriam aos dados
alternando-se em zig-zig-zá!
Ictiosofias de Carochinha...
Um lindo peixinho dourado
que não dava conversa pra ninguém
vendo seu reflexo poliglota no vidro do aquário,
pensou em voz alta
num francês castiço:
Le Même! Le Même! Je suis Le Même!
A próxima cena é o gato da casa
derrubando todo o ecossistema
encerrando quaisquer possibilidades de reflexão
e dizendo para si mesmo num tom jocoso em meio à fuga:
Bon Apetit!
Indra
Aquele baile num 8 de janeiro...
Chamaram-no:
A Noite da Interconectividade...
Móros, filho de Níx, era o porteiro
naquela singular rede plural de Indra...
Assim contaram:
Era uma outra vez
num baile de irreconhecíveis
dois seres se conhecendo pela milésima vez,
cometendo os mesmos erros,
provocando os mesmos equívocos,
criando filhos e ciladas
às custas de carne, sangue e ossos
de um mesmo cordel de enganos:
pluralidade singular e irrevogável na rede de Indra
Palíndromo, oroboro... seja lá a que pavio pertença,
viver é algo muito inflamável!
Cuidado! Vidros!
A rede plural de Indra na singularidade embriagante
de trazer a eternidade numa convulsão de vísceras
derretendo a maquiagem irretocável dos mascarados.
Que poder haverá por trás das nuvens distantes, efêmeras e
cúmplices
de um mesmo céu em precipícios?!
Se Deus fosse a pluralidade no singular
uma só fresta já revelaria todo um universo onde a luz,
ao penetrar o espírito dos homens que têm fome e sede de
justiça,
refletiria seu eclipse em forma de neblina atravessada.
O amor prevalece como testemunha nos vultos dos amantes que se
procuram.
Eles se beijam entre a volúpia e a maresia dos canais de Veneza,
construindo pontes imaginárias pela umidade das colunas
e o toque morno de línguas que se contornam...
O poder do amor que tudo move,
que nos faz subir montanhas para dançar com os dervixes,
e nos inspira a cantar canções de amor do alto das colinas
para nos impulsionar depois a contar suas lendas
ressuscitando depois na luz de um outro e mesmo amor,
no qual simultaneamente
todo o universo gira, pulsa e acontece,
mesmo quando o carrossel subitamente para e se cala.
A Vitória de Epidauros
Fragmento de pedra, sem asas ou membros
a Vitória de Epidauros ainda voa em nossa direção...
Como todas as nikes descendo degraus imaginários
que nos resgatam em aeroplanos
ela vem até nós, incógnita,
sem identidade alguma no tráfego da vida
buscando nossa alma sem chamar ninguém pelo nome,
um bálsamo sem reservas, translúcida,
regendo a vida outra vez num sétimo sentido
do qual nunca ninguém ouviu falar.
E o mar parece maior a cada dia...
É necessário certo grau de sofisticação para ser simples.
Lâmina
Enquanto uma criança puder cantar
haverá esperança. Os labirintos serão extintos
e o sussurrar do vento revelará portais que se julgava
adormecidos para o dia irreproduzível,
insuportavelmente iluminado e febril
que percorre perene a vastidão desta montanha
onde os deuses sorriem perto
e os maladarins dançam flores.
Ele surge do visor de seu elmo
esquadrinhando meus sonhos de improviso
como se fossem métodos de costura
cerzindo a vida de forma racional e estática
em sua armadura que deveria ser de seda
com motivos de colibris na primavera dos setembros
ultrapassando em meteoros mundos do avesso para o direito
sem lógica de vieses ou tramas mal contadas
que lhes desse qualquer plano de voo ou de discórdia.
É agora que meus assobios em pétalas transformarão ferro em
brasas
nessa guerra de ilusões sem vencedores nem pilhagens
onde os espólios serão as máscaras do diabo
caindo sem sequer fazer alarde ou deixar sequelas.
Tudo será entregue, como o bumerangue de uma cruz órfã
sem condenados que a carreguem nem ressuscitados que ultrapassem
as divisas entre a liberdade e o sono recorrentes deste saque.
Há uma visão que não pertence à ordem dos jogos clarividentes
que os cegos conduzem do banco dos réus
pretendendo o juízo final dos que tem sede de justiça
mas que estão mancos de coragem para saquearem suas ruínas
e prevalecerem livres, isentos à brisa da cidade sitiada
e dos estandartes trêmulos de farrapos singrando tênues vitórias
sobre cadáveres esquecidos no valhala de seus medos.
É desse mesmo campo minado de sangue e ossos
que um jardim de tulipas vermelhas e lírios sublimes se erguerá
alerta
sublinhando o tempo e a vertigem de olhar através,
alterando as lentes e as lâminas em células e estrelas.
Os
Mistérios de Samotrácia, Lemnos e Imbros
“Eles são
deuses! Mas maravilhosamente estranhos,
Sempre
fazendo suas formas mudarem,
Sem que
saibamos o que possam ser.”
Goethe, Fausto, Parte II, 8075-77
Todas as Vitórias, leves, em brisas
vêm descendo os degraus para nos buscar por dentro
ao encontro de nossa liberdade:
ninfas prestes a celebrar suas núpcias
com algum semideus que acorde do silêncio dos frisos.
Orgasmos de bocas e púbis sussurrando enigmas
nas pedras do tempo. Suor sem algemas!
A seco, pelo molhado eu sigo seu perfume.
E sinos repicando corações delinquentes
como a onda que bate no meu
peito Noto
e que num mergulho sinto ser o
mar inteiro
de um vento forte e salgado em
maresias relinchando nas narinas...
As luzes alcançam
pontos de intersecção
sinalizando a estrada paralela
à praia
e que ninguém sabe para onde
vai,
exceto pelo aroma inebriante
de tomilho e lavanda
incontestes riscos de
violeta vistos daqui
em lampejos raros, fugazes e
telegráficos!
Eu só sei o caminho até o
farol porque ele é tão inegável
quanto o sol no zênite de um gato preto
brincando livre num mesmo céu de enésimas potências!
“Ser
gerado pelo mundo, moldado em luz,
fortalecido
pelo Sol com todo o poder da Lua…”
A
seco, pelo molhado
minha sede é de urgência e até na contramão eu te persigo!