quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Sombra da Lua, o saveiro

 

 Sombra da Lua, o saveiro

 

Havia um brasão dionisíaco, quase um beatle,

que num 75 rpm na eletrola, arranhava assim:

 

Estou amargando melhor

o vinho do meu sacrifício

para o ácido vinagre dos tempos.

 

Quando tudo azedou de vez

costumava invariavelmente assobiar essa canção

enquanto tropeçava em minha sombra

pregada aos pés como um par de meias

arrastando seu destino de abandono pela metade

e agarrada contumaz ao rastro dos caminhos sem largar de mão

espichando trêmula um resto de pôr do sol

a diluir sua densidade em poucas notas

numa saudade desbotada entre vermelhos e brasas.

 

Na estrada, ficavam a saudade e o gosto dos automóveis.

 

Era uma vez um menino sem juízo

que, nascido em Juazeiro,

transmutou o karma de sua velha loucura

no que um dia ousaram chamar de bossa nova

por pura brincadeira de um destino

feito do mesmo nylon que as cordas de seu violão

e de suas meias, que insistiam em fazer par perfeito

com duas cores diferentes, perseguindo sombras pelas estradas,

soprando o talco das cinzas e dos homens.

 

Mas então não é isso o que o pôr do sol também faz

ao reunir toda vertigem num único cartão postal,

disfarçando extremos como numa ponte

que tanasse o gosto de ser lábaro e ser terceiro elemento,

não importando em lhufas a tragédia suja implícita na paisagem?

 

Crescer depois foi uma pirâmide!

E o deserto, àquela altura apenas um mero detalhe tosco de céu,

era o único conteúdo verdadeiro em meu suor escravizado.

 

Fossem cabras ou camelos

nunca faltou pastor que lhes tangesse o fado

sempre à frente de seu próprio tempo,

chocalho de guia que nunca se perdeu de seus tutanos

na cega vigília de Tirésias

conduzindo quem lhe ouvisse ou adivinhasse ruídos,

lendo eternidades a esmo

num atalho pisado de fim de tarde e mais alguns balidos,

porque definitivamente

ninguém é feito apenas de ferro ou lã

e a vida em seus profundos

carece escandalosamente de tanino.

 

Em alguns tipos de selva, não solto meus pássaros.

Deus, alado cúmplice, nunca foi meu fiador nem rapina!

Fiz meu barco conforme a floresta concedeu

e deixei o madeiro mergulhado no mangue

como antídoto de resistência ao tempo do que viria depois.

 

Quando os ventos sopram pela manhã no quadrante norte

os saveiros partem em direção a Salvador.

Duas horas da tarde é a viração,

quando os ventos se invertem e é hora de voltar

pelas mesmas velas

na vigília cega das hidrodinâmicas

de trajetórias ímpares aos pares

espinha dorsal das embarcações que chegam à eternidade

do meu porto, que é seu abrigo e meu ventre.






quinta-feira, 16 de julho de 2026

Bahia

 


Bahia

 

Acontece algumas vezes

- Principalmente quando as fadas baianas confabulam:

 

De bicicleta, Tauã, um anjo vermelho em ascensão,

cruza o Quadrado calmamente

como se caminhasse sobre as águas.



terça-feira, 26 de maio de 2026

Ciranda cirandinha...

 

Ciranda cirandinha...

 

Dei rumos à discórdia por tempestades à risca.

 

E na trama do tempo,

à revelia

guerreiros com guerreiros

jogavam caxangá,

enquanto na vala comum,

em pleno pelotão de fuzilamento

escravos de Jó morriam aos dados

alternando-se em zig-zig-zá!


terça-feira, 31 de março de 2026

Ictiosofias de Carochinha...

 

Ictiosofias de Carochinha...

 

Um lindo peixinho dourado

que não dava conversa pra ninguém

vendo seu reflexo poliglota no vidro do aquário,

pensou em voz alta

num francês castiço:

 

Le Même! Le Même! Je suis Le Même!


A próxima cena é o gato da casa

derrubando todo o ecossistema 

encerrando quaisquer possibilidades de reflexão

e dizendo para si mesmo num tom jocoso em meio à fuga:

Bon Apetit!




 

sábado, 21 de março de 2026

Indra

 

Indra

 

Aquele baile num 8 de janeiro...

Chamaram-no:

A Noite da Interconectividade...

 

Móros, filho de Níx, era o porteiro

naquela singular rede plural de Indra...

 

Assim contaram:

Era uma outra vez

num baile de irreconhecíveis

dois seres se conhecendo pela milésima vez,

cometendo os mesmos erros,

provocando os mesmos equívocos,

criando filhos e ciladas

às custas de carne, sangue e ossos

de um mesmo cordel de enganos:

pluralidade singular e irrevogável na rede de Indra

 

Palíndromo, oroboro... seja lá a que pavio pertença,

viver é algo muito inflamável!

Cuidado! Vidros!

A rede plural de Indra na singularidade embriagante

de trazer a eternidade numa convulsão de vísceras

derretendo a maquiagem irretocável dos mascarados.

 

Que poder haverá por trás das nuvens distantes, efêmeras e cúmplices

de um mesmo céu em precipícios?!

 

Se Deus fosse a pluralidade no singular

uma só fresta já revelaria todo um universo onde a luz,

ao penetrar o espírito dos homens que têm fome e sede de justiça,

refletiria seu eclipse em forma de neblina atravessada.

 

O amor prevalece como testemunha nos vultos dos amantes que se procuram.

Eles se beijam entre a volúpia e a maresia dos canais de Veneza,

construindo pontes imaginárias pela umidade das colunas

e o toque morno de línguas que se contornam...

 

O poder do amor que tudo move,

que nos faz subir montanhas para dançar com os dervixes,

e nos inspira a cantar canções de amor do alto das colinas

para nos impulsionar depois a contar suas lendas

ressuscitando depois na luz de um outro e mesmo amor,

no qual simultaneamente

todo o universo gira, pulsa e acontece,

mesmo quando o carrossel subitamente para e se cala.



terça-feira, 18 de novembro de 2025

A Vitória de Epidaurus

 

A Vitória de Epidauros

 

Fragmento de pedra, sem asas ou membros

a Vitória de Epidauros ainda voa em nossa direção...

 

Como todas as nikes descendo degraus imaginários

que nos resgatam em aeroplanos

ela vem até nós, incógnita,

sem identidade alguma no tráfego da vida

buscando nossa alma sem chamar ninguém pelo nome,

um bálsamo sem reservas, translúcida,

regendo a vida outra vez num sétimo sentido

do qual nunca ninguém ouviu falar.

 

E o mar parece maior a cada dia...

 

É necessário certo grau de sofisticação para ser simples.



 

 

Lâmina

 

Lâmina

 

Enquanto uma criança puder cantar

haverá esperança. Os labirintos serão extintos

e o sussurrar do vento revelará portais que se julgava

adormecidos para o dia irreproduzível,

insuportavelmente iluminado e febril

que percorre perene a vastidão desta montanha

onde os deuses sorriem perto

e os maladarins dançam flores.

 

Ele surge do visor de seu elmo

esquadrinhando meus sonhos de improviso

como se fossem métodos de costura

cerzindo a vida de forma racional e estática

em sua armadura que deveria ser de seda

com motivos de colibris na primavera dos setembros

ultrapassando em meteoros mundos do avesso para o direito

sem lógica de vieses ou tramas mal contadas

que lhes desse qualquer plano de voo ou de discórdia.

 

É agora que meus assobios em pétalas transformarão ferro em brasas

nessa guerra de ilusões sem vencedores nem pilhagens

onde os espólios serão as máscaras do diabo

caindo sem sequer fazer alarde ou deixar sequelas.

 

Tudo será entregue, como o bumerangue de uma cruz órfã

sem condenados que a carreguem nem ressuscitados que ultrapassem

as divisas entre a liberdade e o sono recorrentes deste saque.

 

Há uma visão que não pertence à ordem dos jogos clarividentes

que os cegos conduzem do banco dos réus

pretendendo o juízo final dos que tem sede de justiça

mas que estão mancos de coragem para saquearem suas ruínas

e prevalecerem livres, isentos à brisa da cidade sitiada

e dos estandartes trêmulos de farrapos singrando tênues vitórias

sobre cadáveres esquecidos no valhala de seus medos.

 

É desse mesmo campo minado de sangue e ossos

que um jardim de tulipas vermelhas e lírios sublimes se erguerá alerta

sublinhando o tempo e a vertigem de olhar através,

alterando as lentes e as lâminas em células e estrelas.