domingo, 16 de fevereiro de 2014

Cinco Elementos para Cinderela - I

Cinderela


“Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem é como vós?”

Salmos 35:10

a Maria Lucia Merola


Um corisco de meteoros

atravessa a densa neblina habitada dos últimos invernos.


De acordo e trato com o destino,

meu conforto era o borralho.


Mantras murmurados pelos ventos do vale todas as tardes

na expectativa de que os mapas todos se fundissem

numa região abissal completamente conquistada

por geografia de carochinha submissa em tempos de fênix.


Quem determina?


Internos que comandaram e seguiram rumos sequer imaginados,

lampejos de compreensão quase inaudíveis...


Decidi viver o desconforto do Conto de Fadas

na vez da bruxa e deixei que ela se entretivesse

com seus caldeirões de fada madrasta.

Quem pode saber quando virá a hora do Baile?


Saí de foco procurando um sapateiro pelas ruas da cidade,

pés no chão e peito nas alturas,

dono feliz e triste do completo itinerário.


Branca de Neve sabe o tempo todo da maçã envenenada

mas comete sempre o mesmo erro por resignação à fábula.

A princesa da alma conhece a nobreza do destino

e também o reino que o preço do sequestro exige como resgate.


No virar das páginas

que astrolábios inventar então

para beijar esses céus por entre as fendas

de final feliz que nunca chega?


Fábulas e padrões sem medida

seguem cálculos que a previsão não lê,

binóculos e lentes que nossa visão de horizontes

não delineia de resvalo. Não se sabe o fim da história

e a hora é agora, na realidade da vassoura,

na faxina interminável de todos os meus dias

esperando um príncipe que eu sei, existe!


À falta de outros lábios

beijo os espelhos na paixão convexa da própria sina,

expandindo os muros da prisão nesse borralho,

criando sonhos de Bela Adormecida que nunca dormem,

comendo páginas do diário nesta torre

pra divisar os horizontes da Floresta

e digerir o fado que me induz em congestão irreparável de liberdade.


Eu acordo do Livro.

Tudo ao mesmo tempo agora.

Finda fábula!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Caixa de Brinquedos


Boneca Russa

Hoje, vou chegar mais tarde

e abrir uma porta

que dará em outra porta

que por sua vez abrirá outra porta

que foi onde tudo começou um certo dia.



Uma verdade conterá outra verdade.



Era uma vez eu e você

numa rua com pedrinhas de brilhantes

em ciranda de fazer destino por onde nosso amor passou

sem deixar rumo ou endereço.



                                                      Brinquedo de Corda


Coração de brinquedo

há tempos ouvi falar dos temporais

e não quis trazer os raios

às cordas dadas por descuido

- metáforas soltas num playground



Como conto de fadas

a Conquista da Disneylândia



Como final feliz

o despertar de todos os relógios

os pulsos livres do jugo do limite

o sulco da lágrima

em direção à risada solta

meu corpo nu

em forma de adeus.



                                                                Lullaby


Sair da hipnose de si

como quem antevisse os espaços

e dispensasse a hora extra no escuro



Dei duro

só pra poder usar batom depois



Hoje, Deus sorri vermelhos

por baixo de seu nobre mustache



A cada nova manhã

danço para Ele ao som de Seu silêncio



E todo por de sol

é uma nova mensagem para o amanhecer



Assim espero por Ele

trazendo as flores para embalar

Seu peito de menino

e me fazer então dormir quieto

no Oceano do Seu Amor

o sono dos espertos

    



domingo, 19 de janeiro de 2014

Três Fados para Maga - [ III Lisboa ]



Fado de Lisboa

                                                      a Magali Merola


“Vivo. De quê?

Nem infância ou futuro decrescem.

Numerosas e múltiplas existências

transbordam de meu coração.”

 Rilke


Homem insone perante a lição das flores,

sinto-me pequeno diante delas

mas trago inteiro teu jardim por dentro.


Um paraíso que recompõe-se por conta própria;

flores de inverno que começam a surgir

independentes do meu desejo ou sina.


Tudo conspira

além das cordas

e do bojo sonâmbulo da guitarra

a cantar navios

além do Bojador.


Vivo teu inverno ensolarado,

terra prometida do teu Exodus

envolto em tuas canções aos tsunamis.


Assim eu queria teu fado e tua luz sem fim,

Maga flor, farol de todos os meus dias!


O sol de tua luz

fotossintetiza

o esboço das minhas cicatrizes,

marcas coloridas que se transformam

em cartoons de tatuagens

descrevendo sonhos que não dormem.


Para sempre teu perfume perseguindo minha essência,

queimando teu incenso numa saudade marítima

de portos por conquistar

sem dizer adeus às conchas da praia,

flor de um cais já conhecido

e antevisto em percepções de clorofila

escritas nas areias como todos nós.


Nós que se desatam:

Velas ao mar.


Maga flor de todos os meus dias,

anjo sem tempo inquestionavelmente aqui,

eco das ondas

em peito de eterna criança conjugada.

- Meus verbos são teus.


O Todo que hoje vivo

é como o dia em que te conheci

num progresso de coreografias não marcadas

onde cada passo está ainda por acontecer

e é desde sempre a Dança que te imortaliza

neste palco isento de cenários

do meu coração cigano

sem a maquiagem do tempo.


Dança, minha eterna Musa!


A memória de todos os poetas

é apenas um olhar de teu olhar,

um vislumbre de segundos

abraçando toda a dimensão da tua paisagem

mais o céu inteiro:

dimensão rediviva que te perpetua

em constelações de agora-já com o teu nome impresso nelas.


Sem fim, absoluta,

complexo jardim de estrelas:

Maga luz, flor de todos os meus dias!






sábado, 28 de dezembro de 2013

Três Fados para Maga [ II Alfama ]




Alfama

                                                                     a Magali Merola


A noite trouxe segredos que o dia recompôs em outras cores

de amanheceres raiados atravessando nuances e dourados,

larga viagem para tão pouco amor,

memória vaga e latejante em minhas veias

procurando ainda os antídotos que não pude trazer à tua vida...


Minha lira emudeceu em teus cabelos

e tua metamorfose calou fundo meu coração e meu sangue

a esperar teu regresso, num arco-íris entre meus dedos feridos.

Risquei com minhas facas a marca das tuas pegadas

para despistar dos deuses do destino tua passagem

mas o peito aberto gritou cada passo e te segui.


As palavras do teu fado retornando em ecos ao longo dos meus dias

estremeceram lágrimas nas retinas em adeuses

de meu sorriso esperado

num porto a que já não voltas:

cais mudo das tuas respostas

em navio envolto por neblinas...


Se perdido entre as esquinas da saudade

procurar teu perfume em todas as flores

nenhuma responderá tua voz ou viagem: meu acalanto...

Mas ainda assim, incondicionalmente eu canto!


Se estrelas desenham tuas constelações em meu dorso nu

uma coreografia de luzes se alastra rasgando um céu em cicatrizes.

Teu Paraíso é minha tatuagem.


Tua dor que não se apaga, adormece em meu colo de criança,

teu pulso, uma tarefa cumprida num entardecer revolto

tardio como um ipê roxo em fins de primavera.


Dançaste a vida em supostos sonhos negros,

anjo alucinado em minhas brumas de quaresma,

não respondo por meus versos, véus que me perseguem

em pistas imaculadas pela neve

dessa vida que me derrete pouco a pouco

rarefeita em visões lisérgicas e tênues sem tua presença insone dentro dela:

Redoma.


Moira do tempo, Átropos do que foi palco um dia.

Ísis sem véus e que nunca transgride

a estreita noção entre medo e desejo: mistério desfeito.


Epifanias...


Amor meu, conduz minha viagem que prossegue a pauta agora

sem canções de despedida que possam ousar meu degredo

e que meus olhos não pulverizem presságios que não pude inventar

no primeiro solavanco da carruagem de Elias

que me aguarda à porta da casa bem agora

em seus corcéis arrebatados nesta noite

como no Livro dos Reis...



Três Fados para Maga [ I- Mouraria ]



Mouraria

                                                      a Magali Merola


Se um fado viesse cantar em mensagens de ansiedade

tantas histórias de um tempo de não existirem cantadores

ao som dos personagens vagando as ruas da Alfama

tomaria da guitarra seu pranto de rio magoado

e comporia meu Tejo num murmúrios de vinhedos.


Tragam-me um pão que adivinho, por clarividência de Caronte

as notas de todas as canções não inventadas

porque tua música é meu vinho

e entre verbos e saudades, conjuguei todos:

cem modos de embriaguez, indicativos ou subjuntivos

e bebo aos goles o presente para não engasgar o passado.


Na palma da minha mão teu nome foi escrito.

Foram sonhos? Se em tatuagens ou cicatrizes já não sei...


Os calos que as facas deixaram em queloides caligrafias

cobriram a tua história. Mas teu coração de cigana

cresceu pulsando sua dança as estradas da minha alma

sem deixar pistas, apenas um vago perfume

que me orienta em noites de chuva e me levam ao mesmo rio

em que comecei a cantar teu Fado com a voz da minha infância.


Teu condão dividiu meu mar em dois

e fez da cisão um Oceano

onde volto todos os dias

a ser peixe em tua coreografia celebrada.


Tua Obra é meu ofício

Eterna Musa, Luz dos meus dias!

Flor do meu peito que se abre, mais nada…


28.12.13






quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Kailash



Kailash


Três vezes circundei a montanha

antes que a neve caísse em meu rosto.


Um marco deixado entre as bandeiras das colinas,

um murmúrio de ventos revelando rezas

em mensagens cifradas a ouro e prata.


Sussurros de veracidade soprados desde sempre

pelos desfiladeiros e amplitudes ao redor...

52 km em sentido horário.


Poeira nos lábios e na garganta

devido às prostrações.


Calosidades nos pulsos

após tantas fricções nas pedras do caminho

e a alma limpa de um dervixe giratório.


Kailash desde sempre...


...Indus...


Três vezes os senhores de todos os tempos

voltaram-se para me lembrar a linha demarcada

entre a vivência dos limites

e a amplitude dos sonhos por serem sonhados.


Espelhos que desvendaram verdades cruas

mas prontas como um pesto ala genovese

que deveria ser comido frio.

Assim fiz.


A fome que me encontra hoje...

não é mais um jejum sublimado e voluntário...


...Sutlej...


É sentar-se então à mesa e iniciar com um brinde

à luz maior que abençoa todas as refeições,

a responsável pela fome mais sagrada:

a que sempre trazemos como provisão aos nossos dias insanos...


...Brahmaputra...


Nosso desejo maior de nutrir o mundo em alcaloides

é fazer da luz espessa do termômetro, uma neblina

para arrefecer qualquer temperatura

que porventura ainda não tivermos decifrado

apenas para afastar as miragens da febre que encanta

mas não sacia sede alguma.


Ilusão sôfrega...


Hoje os cantis estão cheios de néctar.

A caravana é uma cidade em dia de música.

As abelhas agora produzem mel nas rochas do deserto!


Num espaço sem medidas

com a ampola do tempo feito neve derretida...


Frente a um espelho que não acrescenta nem subtrai,

refletindo alturas sem previsão alguma de alpinistas

na conversão de quatro grandes rios imaculados

circundando um ônfalo:

sede vencida!


...Karnali...


Kailash pairando acima da névoa...


A montanha não precisa ser conquistada.

Basta sua visão em magnitudes

para atingir o Sol além das nuvens

e abraçar atmosferas que gravitam

tanto na Via Láctea quanto nos elétrons em torno do coração.

Imutável despertar sem fronteiras.