quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Percurso


Percurso


Invento verbos que não registro

olhando paisagens que ultrapassam o transferidor.


Há muito tempo

trouxe um fardo que a poeira foi comendo pela estrada

sem deixar rastros, cúmplice e companheiro do vento

que apagou todos os vestígios sem deixar endereços ou mapas.


Hoje, percebi que o hálito úmido da manhã,

perspicaz, envolvia um céu no vale.


Já faz tempo.

que as bússolas foram atravessadas

e os astrolábios beijados em diários de viagem

borrados de batom quando faltavam palavras.


Certa vez as estrelas se compadeceram

e vieram se refletir no azul do lago

emaranhando astronautas e argonautas

para consternação geral de satélites e escolas de navegação.


Assim, trezentos e sessenta graus foram cumpridos sem compasso,

sem êxodo, degredo ou promessas de constelações desconhecidas.





domingo, 22 de novembro de 2015

O Cerne dos Infinitivos


O Cerne dos Infinitivos


Manter a vida diária intacta

sem amarras ou conflitos

preferências ou rejeições

e receber tudo com a resignação do Buda

que apenas comia do que caía em seu prato...


Saber nos tutanos do espírito

da imparcialidade das flores

que tudo ouvem e vêem

com o mesmo senso tenro e fresco de presença

e conservam, imaculadas, o belo de seu ser

em guirlandas para todo destino, incondicionalmente:

seiva que tragou um dia do próprio âmago da terra.





Mapas do Destino



Os Mapas do Destino

O Mistério sussurra segredos em nossos ouvidos
e não compreendemos ao certo
sua linguagem simbólica de brisas e outonos.

Mas a clareza de que o pequeno barco
de nossa existência resignada
segue adiante, conduzido por esse movimento,
traz em seu bojo um ninho de mantras
que faz o oceano transparecer e alargar
fronteiras e geografias que ultrapassam proa e popa.

Assim o barco torna-se o próprio mar e vento,
a viagem e seu almirante:
abrangência silenciosa das pirâmides
em ecossistema de quietudes
ritmo que pulsa tectônico mudos precipícios
e prescinde em sorriso interno do temor das alturas.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Das alcachofras fosforescentes e mais nada...



Ecossistemas

                                                                  A uma migalha de pão

que deixada para uma gata
 permaneceu impune no muro,
intocável

 Bichos matreiros e sagazes,
não se ganha um felino nem com o melhor padeiro
se não houver confiança mútua

E ela se foi por outros muros
outros quandos...

Mas um beija-flor de imediato
em fios de eletricidade
avistou curioso
em telégrafos de assobio

Depois
assustado por algum ruído
voou para flores mais próximas

Rimas não mentem
Todas. Em sufixos e prefixos

Minutos para que um exército de formigas
viesse em valhalas buscar provisões.

Uma fila delas pelo muro,
trouxe o beija-flor de volta em arpejos.

...E a gata
que atacou em golpes de trapézios
sem alçar zás de passarinhos!

Ciranda

As alcachofras fosforescentes
assistiram tudo isso junto ao entardecer
pelos muros do hospício

Viver as palavras como enigmas
 decifrando a vida em parábolas sem fim

...sempre por ser contada
sem desfechos ou prelúdios
sem amarrar conclusões
que não condizem,
apenas reticências...






quinta-feira, 25 de junho de 2015

Ciranda Muiraquitã



Ciranda Muiraquitã
                                                                    a João Guimarães Rosa

Era uma vez uma concha que abrigava em seu íntimo calcário
Toda a imensidão do Oceano em noites de estrelas.
E os navegantes incautos que tocaram sua branca superfície 
Ouviram histórias de ondas e mares distantes
Que sua voz de tímpano contava
Sobre marinheiros de ébano curtidos a sol e sal
Em bravura de beleza embriagada.

E a concha abrigava em seu íntimo todos os sete mares
E a imensidão dos olhos do menino que lhe encantava mineral, o fado.

E contava o menino aos almirantes a postos
Da concha que era o próprio mar em que estavam e ouviam...
E em suas canções de criança
Todos os oceanos eram resposta clara à sua voz:
Arcanjo Gabriel quando chamou Maria.

E todos os oceanos a postos se continham gotas
No interior da concha acústica de cálcio. Puro desejo.

E vai que um dia o menino acorda em outra concha
Por direito de lenda ser e agir de acordo.
E a concha...

Mas qual delas, diria o poeta para além da história
Com sua voz, também de anjo...

Dizem que mesmo em sagas assim difuso
Um deus movido a sol e sal
Mostra-se Rei. E é tudo.

Pouco sabemos da natureza fugaz da criança
Que tece mistérios que nem o mar comporta.

Mas sabemos o gosto do Absoluto
De sabor inconfundível, fantástico e exato.

Além do mais, ele era boto, almirante e Netuno.

E era menino, sabia tudo.


domingo, 21 de junho de 2015

A Terceira Visão dos Tuaregues


A Terceira Visão dos Tuaregues
                                                                     "For contemplation hee and valour formd
                                                                              For softness shee and sweet attractive Grace,
                                                                   He for God only, shee for God in him."
                                                                                                 Milton - Book III - Paradise Lost

Guarda o coração, esse tesouro,

não como baú de segredos

mas uma chave-mestra que possa abrir todas as portas

e ultrapassar tanto degredo

daquilo que nunca foi tragado pela distância.


Séculos ocultos em caixas de Pandora

seriam um colapso à arquitetura fria dos relógios.


O visível é apenas um repertório de mentiras

que o mundo desfia num rosário de miragens sôfregas

e os homens imprimem ao longo de sua história

paramentados em cega liturgia de ruídos.


O cenário do paraíso dispensa muros na paisagem

tudo está perto e palpável como no primeiro dia dos mundos

sem nada que separe a cálida surpresa da aventura

de sua realidade suprassensível aqui: pura fábula!


(Entre um pulsar e outro

o miocárdio abriga em seu útero livre

a possibilidade de todos os aeroportos!)


Um rio que já tivesse cumprido seu fado de oceano,

tudo às avessas, como séculos ocultos em caixas de Pandora

sendo um insulto à arquitetura fria,

ainda que magnânima, de todos os relógios!


Big Ben

Big Bang 

Tanto faz!


Intermezzo:


Ela cantou:

O tempo não volta: enlaça!


E ele em baixo contínuo:

Amor que não estanca, abrange!


Luz através das varandas!

(Cena do Balcão em Romeu e Julieta)


Intraduzíveis sentinelas

da grandeza do espírito

que não conhece tempo, espaço, vida ou morte

os livros sagrados são cantados,

na busca da irreproduzível linguagem do eterno.


Ariadnes em prelúdios

intercedam fios nessas meadas de presságios,

contos de fada à guisa de faróis,

e deuses que nos mantenham neste mesmo porto

de nenhuma conclusão,

onde o pensar em qualquer partida

já é em si mesmo uma conquista

e o tratar de ser luz, seu único parâmetro.


Enquanto isso, berbere

atravesso tudo a pé, tamaxeque

num voo rasante pela amplitude do vale

triturando uma nova poção mágica

para extrair todos os fôlegos num só golpe:


Tablacadabra




sábado, 11 de abril de 2015

O Leão de Dentro


O Leão de Dentro

                                                               a Radha Vasumathi

Comecei a mergulhar naquele limbo
entrando devagar no palácio de espelhos
como num purgatório
que doesse um paraíso a cinco minutos
sempre por ser alcançado.

Mesmo a 200 km por hora
a larga sucessão de horizontes
perde o fôlego panorâmico nas retinas incansáveis.

Que liberdade paralela
me funde ao nada e ao já-no-enquanto?

Só o tutano do espírito
capaz de vibrar seu princípio a cada instante
compreende...

Medo de pular as entrelinhas?

Saci bissexto em dia de domingo
adianto a pólvora dos relógios
alcançando um dia útil que permita
incendiar de uma vez por todas
a roça de milho e tecer tranças cegas
nas crinas dos cavalos selvagens do destino
virando o folclore pelo avesso
para estabelecer um vínculo imediato
e impávido
com a próxima página.

Nômades não têm pretexto, decididamente.

Tudo é motivo para partir
mesmo que não se conheça o itinerário
e a única coisa a conferir
seja a eventual falta de combustível
para prosseguir adiante
totalmente na contramão
em estado de alerta.

Adiante no avanço das horas!
Ainda que não se adivinhe o conteúdo
ou se conte quantos quilômetros faltam
para trocar definitivamente as lentes
e subverter a paisagem de uma vez por todas.

A estrada é só o que conta
para intermediar a meta
e a percepção da viagem para dentro:
hélices que o tempo afronta.

Saber dos tutanos do espírito...

Com um espinho de gelo no coração
parto em nômades comícios
para dentro do silêncio
que derretido pelo calor resignado
deixará uma brecha
para que o sol penetre a aorta
e disperse toda sua luz
pelo meu corpo então aceso:

Completo farol para as estrelas!