sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Alma Mater


Alma Mater

Unidade, mãe de múltiplos filhos!
As estrelas são assim mesmo, quietas e insubstituíveis num céu intrínseco,
um abraço de distâncias com o mar de luzes no peito em grito aberto
ciranda contínua de onde viemos e estamos.

Sem outros mapas que não abismos de estrelas para onde voltar.

Cartógrafo amador, quantas vezes errei os cálculos e as fórmulas
apenas por temer minhas neblinas!
Mas os faróis sempre perdoam...

Enquanto houver terra e mar
alternar navegação e retorno
tornou-se um mito vivido em segredo
tradução prévia de um ciclo maior e mais tangível
que nenhuma babel pode transpor em alturas.

O trânsito na superfície nunca ignorou
a rota abissal que, turva, meu lastro viu o tempo todo em escafandros,
papiros de lembranças onde o compasso persiste
como um anzol da clareza que inevitavelmente me fisga
e nácar que torna possível a sede almirante de partir
que oceano nenhum sacia nem nega.

Eu me atrevo
 mas traço planos frágeis em barcos de papel
enquanto meus piratas cometem pesadelos em pilhagens
contra meus sonhos que nunca dormem e jamais naufragam.

E quanto mais me arrisco, mais salgada fica minha viagem.
Tudo passa excessivamente do ponto,
da compreensão mais insípida
à mais salobre ignorância.

Assim, rota hipnótica do navio
num mar sonâmbulo que se acredita constelação
persegue os astros esquecendo os bancos de corais.

Encalhar nos arrecifes é muitas vezes a possibilidade
de conquistar o continente que os muezins não viram antes.

Lágrimas abissais, suor abissal,
coléricos ou sanguíneos humores que transcendem métrica e rima.
Tudo custa!

As estrelas são a nossa única grandeza.
A epifania, a realidade mais justa,
aquela que traduz a babel imposta e espessa da lei dos homens
num léxico diluído página a página nas entrelinhas:
o cotidiano como a mais possível liturgia
gritando jugulares e cães soltos na garganta.

Não ditei receitas fleumáticas de viagem.
Medi todas e testei in vitro.
E foi assim que o laboratório explodiu naquela tarde,
como num filme de Antonioni
enquanto Pink Floyd.

Ciranda

Ao final, mar e céu nada mais são que uma mesma e intrínseca verdade.
Não há outro mar que não abismos de estrelas.
Tudo está muito perto. Nosso binóculo ao contrário
é que insiste em ver a paisagem na contramão.

Toda ascensão é para dentro.




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