terça-feira, 27 de outubro de 2020

A Reinvenção do Olhar

 


A Reinvenção do Olhar


Não há saída para o pôr do sol exceto o poente.

O púlpito no leste é um cadafalso a oeste

e o resto, céu para contar a estória incondicionalmente,

não importando quantos astros cometam comigo

a ousadia de riscar a esmo o zênite do bordado

atravessando a nado um zodíaco pálido em previsões.


Ainda acredito e defendo o impacto dos amanheceres,

todos eles, dos mais nebulosos

àqueles completamente olímpicos

porque cada um, sem exceção,

passou antes pelo estreito de alguma noite

a fim de poder ressuscitar seu próprio dia.













terça-feira, 11 de agosto de 2020

O Rugido Silencioso do Sol

 


O Rugido Silencioso do Sol


As bênçãos vêm todos os dias, em todas as vidas,

corpos de pura luz que não projetam sombras,

com o mistério e a fina ironia dos deuses

perseguindo nossas trilhas indefinidamente,

criando atalhos, abrindo becos e escancarando portas:

interminável arco-íris onde a unidade é plural.


A terra vermelha da Morada do Sol

continua tingindo meus caminhos e apagando pistas

para que quando a encontre de novo

a surpresa seja tão original e tenra

quanto da primeira vez sem fronteiras

e algo permaneça intocável e sólido:

alicerces que nenhuma maresia corrói.


O cheiro de doce de laranja nos finais de tarde...

Araraquara passando trens em minha eternidade…


É esse farol que justifica meu percurso.

É sua inspiração que guia meus mitos,

constelações legítimas bordando crivos

nos riscos nevrálgicos de tanto destino exposto

à poeira, estrada, vento e tempestades

sem qualquer defesa ou referência,

entrega de céu íntimo onde estrelas têm vida inteligente

e se comunicam, indetectáveis para o mundo dos sentidos,

prevalecendo sobre qualquer definição ou códigos de linguagem

atingindo a nota certa da canção

ao cantar com um sorriso nos lábios do regato:

moendas processando o trigo cerzido do campo

pela música do arroio para o pão de luz diário.


A chuva virá, transbordando de mim mesmo

de forma tão clara que a própria escuridão não me achará!

Fruto cuja semente provou do magma ardente

do solo vulcânico, excelente para o cultivo dos vinhedos,

vida criada através das cinzas que se confundem

entre o húmus e as estrelas

enquanto outras vozes se insurgem no incêndio do silêncio

e o teatro de sombras cria sóis ao redor, 

sem prólogos ou epílogos,

puros reflexos do próprio cerne da canção

cujo presente não tem rimas ou melodia sequer,

apenas substância.






quarta-feira, 22 de abril de 2020

À Terra

À Terra

O arado jamais pensou no prazer tenro das uvas

e o vinhedo desconhece por completo

o delírio consubstancial dos sentidos

que num cálice contém toda uma fábula.


O tempo germinou o que um dia foi plantio,

tornou-se colheita e destilou seu vinho depois.


Quando o futuro mostrar-se um projétil no escuro

o solo será outra vez preparado e dele surgirão novos frutos.

A natureza criará mais uma vez

o combustível para alcançar estratosferas

onde os termos de medidas

não mudam apenas perspectivas,

mudam mapas.


Os céus trarão a chuva necessária para irrigar os campos

e a metáfora do suor compreenderá então

a alquimia que custou o amanhecer 

de todos os dias da eternidade!







sexta-feira, 3 de abril de 2020

Taranto

Taranto

                                         A Amyr Klink

Por um gole de água fresca no meio dos juncos,

longe do raso das matilhas, os poemas vão abrindo

vias respiratórias para a vida

criando caminhos sem deixar pistas

compondo voos e mergulhos e descrevendo visões

que nem mesmo drones alcançam


A paisagem marinha se estabelece

Há sempre novos peixes e corais brilhando um sol

que reverbera seu ouro movente pela areia:

serpentes de luz que jamais se cansam

de refletir subterfúgios para fugir de um céu distante



A atmosfera da criação é rarefeita

Ali não há fôlego ou gravidade

É necessário aprender tudo de novo



Perde-se o tapete sob os pés

para herdar o mérito das asas

de todas as conquistas espaciais

através da própria carne

movida assim pelo pulso sem métricas

rimas, notas ou epitáfios



Que eu possa finalmente taconear sobre o tablado

e imprimir meu selo na poeira do destino

que me fez saltar das entrelinhas

e criar meu próprio ritmo dentro do seu avesso

seguindo o ineditismo de outros versos

que trilharão depois mistérios de outra ordem

cuja lógica as veias não sangram

cujo grito resignado solta a garganta ébria dos ciganos




segunda-feira, 23 de março de 2020

Plânctons

Plânctons


Após explosões inevitáveis,

junto os mosaicos em estilhaços pelos corredores.

Há sempre um vitral para ser atravessado pelo sol.


No crisol, tudo entra na mesma combustão.

Luzes ou trevas vão para os guardados

do alquimista silencioso.

É a única certeza no laboratório dos dias.


Ultimamente, os vapores de enxôfre

têm feito a alma cantar vários prelúdios

enquanto jornais desafinam as manchetes do absurdo

em lápides frias calando um futuro que ainda dorme.


E jamais estou fora do tom!


Repito chaves para abrir portas legitimamente inéditas

e o sol invade então a casa inteira com o ímpeto de um samurai

rasgando ao mesmo tempo a expansão de todas as janelas

ainda que seja para um pálido amanhecer acima dos muros.


Ali, escreveram num grafite um dia desses:

Uma só réstia de claridade pode iluminar o mundo


E as sombras prescreveram e fez-se Luz!


Quando cheguei, antes da chuva

retirei-me antes que as sementes germinassem,

não tendo tempo ou chance de ver as flores de plâncton

surgindo da escuridão inflamável no breu do asfalto.


Inundei a insensatez das alamedas

conspirando com o musgo na pavimentação

porque minha fé cria ondas por onde passa.


Quis construir caminhos por entre florestas

sem a opressão intrépida dos semáforos

e envenenei o mundo em alcalóides

destilando o conteúdo deste canto nas paisagens

porque horizontes também são largos abismos

que ultrapassaram o padrão obsoleto da linha vertical.





Ele e a lâmina prometida

Ele e a lâmina prometida


O escudo de Athena era polido

como um espelho cristalino.


Filho de Dânae, concebido de uma chuva de ouro

e alado agora pelas sandálias de Hermes,

Perseu cantava assim nos interlúdios:


E sob o elmo de Hades

que me fez invisível

nada me escapa e ninguém me vê.


Do reflexo, ele pôde vislumbrar a posição da medusa

e estudar melhor a precisão dos golpes

vivendo o script que lhe cabia no momento

ainda que não tivesse aprendido com deus nenhum

a ser mito ou herói de saga alguma.


Contando de antemão

com as ferramentas no viés do exercício

teceu sua lenda como quem riscasse um círculo

de sua espada curva e fatal,

a única arma que realmente lhe pertencia,

e gume do aço que selou de vez sua lenda

e apagou para sempre o jugo da górgona no penhasco.


A inteligência de sua destreza

justificou sim, a intercessão alerta dos três deuses

como luzes de sua cega e bárbara coragem.


Aos frisos congelados e extáticos dos olimpos

falta a voltagem escatológica da carne e do sangue

capaz de cumprir a eletricidade de todos os enredos

tentando adivinhar o vulto de algum Prometeu caído

mas livre da tortura das águias.


De pó e lama constroem-se os mitos.













































segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Prana


Prana


Minha lira também afina cordas de fogo

para incendiar seus desconsertos!


Mesmo o travo na garganta

é a possibilidade de um novo canto rouco

despertando velhos antídotos.


A estória saberá encaixar seu enredo de meadas

onde todas as linhas se encontram,

onde todas as contas são prelúdios de oração.


Permanecerão sem resposta, no entanto,

os beijos que atirei ao vento em tempestades,

lábios que tocaram um enxame de vespas enfezadas

nas espáduas de Atlas, antes do roubo dos pomos.


Perdas incontáveis também ficarão sem registro.


O silêncio prevalescerá vivendo seus escritos,

perpetuando memórias que dispensaram palavras

ainda que o peito aberto imortalizasse cada partida,

e cada apito em sopranos dos trens coloridos

que se foram levando estações eternidade afora

soasse como primavera que jamais atingisse um fim

florescendo verdades cruas e essenciais,

um destino de Rio em sede de Oceanos...