domingo, 21 de novembro de 2021

Sinai

Sinai


Pela perspectiva do deserto imerso no mar,

tudo é uma questão do azul ultramarino no horizonte

ao verde quase translúcido contando ondas serenas

em longas pautas ao longo da praia cerzida de pedras.


Eu trouxe um abismo para contar nos dedos

da superfície alta das montanhas distantes

onde um perfil de céu se esconde recortado

entre neblinas e luzes

enquanto um navio de presságios cruza a paisagem.


Meu coração se partiu como o mar de Moisés

buscando oceanos de compreender

essa redução de felicidade a conta-gotas

que os faraós oferecem como o óbolo

de uma matéria proibida pela censura.


Eu sou o lugar onde o deserto beija o mar

e ambos se esquecem deles mesmos

para incondicionalmente se perderem na substância um do outro

sem avisos, sem tempestades ou turbilhões

que não o mais puro amálgama

de algo que se move nas entrelinhas criando paisagens marinhas

por onde mergulho em busca dos versos trôpegos junto aos peixes.


Ergui catedrais sem paredes

para que a memória de Deus atravessasse a nave sem reservas…