segunda-feira, 23 de março de 2020

Plânctons

Plânctons


Após explosões inevitáveis,

junto os mosaicos em estilhaços pelos corredores.

Há sempre um vitral para ser atravessado pelo sol.


No crisol, tudo entra na mesma combustão.

Luzes ou trevas vão para os guardados

do alquimista silencioso.

É a única certeza no laboratório dos dias.


Ultimamente, os vapores de enxôfre

têm feito a alma cantar vários prelúdios

enquanto jornais desafinam as manchetes do absurdo

em lápides frias calando um futuro que ainda dorme.


E jamais estou fora do tom!


Repito chaves para abrir portas legitimamente inéditas

e o sol invade então a casa inteira com o ímpeto de um samurai

rasgando ao mesmo tempo a expansão de todas as janelas

ainda que seja para um pálido amanhecer acima dos muros.


Ali, escreveram num grafite um dia desses:

Uma só réstia de claridade pode iluminar o mundo


E as sombras prescreveram e fez-se Luz!


Quando cheguei, antes da chuva

retirei-me antes que as sementes germinassem,

não tendo tempo ou chance de ver as flores de plâncton

surgindo da escuridão inflamável no breu do asfalto.


Inundei a insensatez das alamedas

conspirando com o musgo na pavimentação

porque minha fé cria ondas por onde passa.


Quis construir caminhos por entre florestas

sem a opressão intrépida dos semáforos

e envenenei o mundo em alcalóides

destilando o conteúdo deste canto nas paisagens

porque horizontes também são largos abismos

que ultrapassaram o padrão obsoleto da linha vertical.





Ele e a lâmina prometida

Ele e a lâmina prometida


O escudo de Athena era polido

como um espelho cristalino.


Filho de Dânae, concebido de uma chuva de ouro

e alado agora pelas sandálias de Hermes,

Perseu cantava assim nos interlúdios:


E sob o elmo de Hades

que me fez invisível

nada me escapa e ninguém me vê.


Do reflexo, ele pôde vislumbrar a posição da medusa

e estudar melhor a precisão dos golpes

vivendo o script que lhe cabia no momento

ainda que não tivesse aprendido com deus nenhum

a ser mito ou herói de saga alguma.


Contando de antemão

com as ferramentas no viés do exercício

teceu sua lenda como quem riscasse um círculo

de sua espada curva e fatal,

a única arma que realmente lhe pertencia,

e gume do aço que selou de vez sua lenda

e apagou para sempre o jugo da górgona no penhasco.


A inteligência de sua destreza

justificou sim, a intercessão alerta dos três deuses

como luzes de sua cega e bárbara coragem.


Aos frisos congelados e extáticos dos olimpos

falta a voltagem escatológica da carne e do sangue

capaz de cumprir a eletricidade de todos os enredos

tentando adivinhar o vulto de algum Prometeu caído

mas livre da tortura das águias.


De pó e lama constroem-se os mitos.