domingo, 20 de abril de 2014

Lastro - Sobre o mudo vasto do mundo

Lastro

(Sobre o mudo vasto do mundo)


Somente hoje a atmosfera rarefeita dos meus verbos em transe

conjugou o tempo necessário e desconhecido 

para atravessar espaços...


Eliminei a primeira pessoa dos pronomes,

assim como perdi todos os subjuntivos.

'Nós' será sempre um novo modo a ser inventado de agora em diante.


Reticências que me conduzem ao asfalto dos caminhos em atalhos

criam a gramática própria das encruzilhadas

com a leveza dos percursos imediatos 

que prescindem de narrativas...

Não há acordos ortográficos para o despertar.


Cheguei cedo ao porto de nenhuma conclusão:

o mais possível itinerário é partir sempre.


Trouxe por isso um lastro para este barco à deriva.


Meu mar tornou-se Um junto a meu leito de rio.


Navegar hoje é conhecer incondicionalmente da foz à nascente,

viver cada passo da hidrografia

com a surpresa dos mapas em êxtases

enquanto o país interior emaranhado de estrelas

traça em terra a imitação de cada nebulosa acima.


Tempo de balés descrevendo minúcias

que jamais ousaria colocar

no mesmo compasso coreográfico das constelações.

Deus dá os mapas em favor do suor diário em corpo e alma.


Enquanto isso, na cena aberta...


Em degradé o oceano prolonga o mesmo azul do céu

sem resposta alguma das marés de porventura. 

Abrem-se as cortinas em ondas.

E os passos descrevem a rota nas areias desta tarde desde sempre

com o eco do destino sendo o fim de alguma praia desconhecida.

Nada permanece.


Meu palco hoje é transbordado: uma parede de água

onde um filme está sempre a ser projetado

para o delírio dos peixes transeuntes

em cumplicidade com os mergulhadores e o peso do escafandro:

Cruz de cada um...

Atmosfera da criação por demais rarefeita

que às vezes embriaga e às vezes é um ar que sufoca:

mas oxigênio suficiente

 para desfrutar momentos como obra divina e graça.

Paisagem submersa.


Em instantes posso vislumbrar

numa bola de cristal transparente

passado, presente e futuro pelo vidro da máscara.

O cenário sempre desmente a dramaturgia real.


Ainda assim o destino é sempre a última cartomante.

Encontro Caronte com a mesma intimidade

 de quem adentrasse uma tenda disposta ao acaso

 numa tarde de circo em dia de domingo.

Por desmerecimento geográfico a cena é única,

tudo acontece num átimo de amarelinhas entre céu/inferno.

A alma da fantasia tornou-se meu mapa.

Minhas roupas são as flores

 que colhi nesta manhã de nudez suprema

com o jardim ainda molhado pela neblina.


Tudo está por ser recriado a todo instante.


                                                                        

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